07-03-2021

Assédio Moral e Sexual: o custo para a Organização e para o assediado. O prazer em subjugar .

Valquiria Furlani*

Antes mesmo que eu comece a falar do tema que se tornou um dos meus propósitos de vida, faço aqui uma pausa obrigatória, pois a pandemia anda nos liberando de tanto formalismo. A situação demanda flexibilidade em tudo.

O trabalho foi para dentro de nossas casas, sem ao menos ser convidado. Agora inverto e invado meu trabalho misturando algo  meu, pessoal.

Cá estou eu, toda orgulhosa, por ser convidada a participar da criação de uma comunidade voltada às carreiras, chamada ArenaSkills.

Trata-se de uma grande tendência para 2021, na qual empresas podem encontrar grupos de pessoas que se identificam com suas marcas, valores e propósitos.

A ideia me cai como uma luva, um espaço tendência que surge em meio a pandemia, que transforma as relações de trabalho e os relacionamentos interpessoais.

E por que caiu como uma luva? Entendo que estamos mais livres para nos manifestarmos como profissionais e  muito mais como SERES HUMANOS.

Então, me libertei e escrevi esse artigo para a comunidade.

Vou contar um bocadinho da minha história.

Sou advogada empresarial, consultora, ministro palestras e treinamentos corporativos e, atualmente, empreendedora digital.

É isso mesmo! A pandemia me fez descobrir que não temos mais limites (geográficos, amorosos, profissionais, etários, etc).

Momentos de dor e incertezas  podem nos transformar, tive comprovação de fato e de direito.

Vejamos meu cenário: Demitida aos 50 anos, casamento desfeito, duas filhas de gerações diferentes (10 e 20 anos) e uma Golden Retriever: nossa salvação peluda frente ao stress do isolamento.

Perdi meu emprego por não compactuar com práticas de assédio moral e sexual que vivi no pior momento da minha vida: o enfrentamento de um câncer agressivo da minha mãe, meu alicerce.

Assediadores podem sentir a vulnerabilidade de suas presas, pois, para eles, somos coisas que podem ser dominadas pelo poder autoritário desgovernado.

Pensei que o melhor seria viajar para tentar reorganizar as ideias, me livrar daquele trauma louco, já que a demissão veio antes mesmo do meu Plano B. Mas como desgraça pouca é bobagem, não pude embarcar para as dunas do Rio Grande do Norte, o Lockdown chegou na frente.

Quem sabe com fé, no verão de 2022.

Movida pelo senso de sobrevivência e pela demanda na área trabalhista, decidi me tornar empreendedora digital e trabalhar apenas com o que faz sentido para mim.

Com boletos mensais altíssimos, não pude nem chorar a morte da bezerra. 

Empreender na era digital sendo eu da análógica, na idade em que os hormônios já começam a se despedir, duas filhas em homeschooling, uma filhota peluda, sem minha fiel escudeira que cuidadva do meu lar e de meus tesouros, um pai que amo e que está viúvo, num primeiro momento, me pareceu assustador.

E, detalhe, com pretensão de mobilizar organizações públicas e privadas a quebrarem o ciclo do assédio moral e sexual, em tempos de crise sanitária sem precedentes.

O tema em si já se apresenta árido em condições normais.

Como pude acreditar que, no furacão da pandemia, falar de assédios, poderia ser mais palatável? E, ainda, em um ambiente online, o qual não domino?

Empresários desesperados em preservar o último fôlego de seus negócios, migrando às pressas seus colaboradores para o home office e rumando com suas  empresas para o digital como último sopro de vida.

Isso é hora de falar sobre assédios? Meu desafio parecia intransponível.

Mas aquela dor e incerteza que tanto me machucaram, também transformou meus medos em combustível.

Nas mídias, casos diários de assédios, que apenas migraram para o ambiente virtual. Relatos que vão desde invasão total de privacidade para controlar jornadas de trabalho, reuniões virtuais intermináveis, sobrecarga, pressão, pouca empatia das lideranças em ambiente virtual, até potenciais problemas de saúde por conta de ergonomia, por exemplo. Sem falar do fantasma do desemprego em cada esquina, solo fértil para germinar assédios. Tudo isso me estimulou ainda mais, não é momento de ficar calada. Aliás, as mulheres não estão mais se calando.

Como já disse, o mundo do trabalho mudou e já não há mais espaço, em qualquer instituição, para assédios de qualquer natureza.

Os empresários precisam, de uma vez por todas, parar de jogar esse tema para debaixo do tapete ou tratá-lo com demagogia. A questão afeta o bolso: empresas performam muito mais quando livres de assédios. A reputação está em jogo e as cobranças são cada vez maiores.

Estudo realizado sobre os custos relacionados à violência e assédio, tanto para as empresas, quanto para a economia do Reino Unido, considerando custos com absenteísmo, rotatividade e queda de produção, representou uma perda de 1,5% do PIB (Eurofound 2015).

Os colaboradores não são apenas recursos, pois o Capital humano é a mola mestra para o sucesso das organizações.


 O novo Normal não existe, já ficou velho e quiçá, com um pouco de sorte, já foi vacinado.

Não cabe mais essa miopia empresarial que resiste em adaptar as organizações no caminho do trabalho com segurança psicológica, inclusão e diversidade.

Aliás, a falta de segurança psicológica, outro tema  a que me dedico, afeta diretamente a produtividade. E, contra números, não há argumentos.

O mundo dos negócios demanda por ética empresarial, está aí a importância da sigla ESG (Environment, Social and Governance), que não me deixa mentir. Nova métrica que valoriza as instituições que primam pelo desenvolvimento sustentável, com boas práticas ambientais, sociais (livres de assédios) e de governança.

Voltando à figura do home office, quem o implantou, mesmo seguindo as determinações técnico-jurídicas, mas sem dialogar com os colaboradores sobre as mudanças necessárias na gestão de pessoas, provavelmente perdeu em retenção de talentos e pode ter ganho de brinde um provável passivo trabalhista.

A questão deve ser tratada com uma equipe multidisciplinar, num ambiente colaborativo e de muita empatia.

O papel do RH e das lideranças são tão protagonistas quanto o papel do profissional do direito. Abaixo o ego.

 
Voltando ao nosso assunto principal: ASSÉDIOS, ainda são um grande desafio para as instituições públicas e privadas. Apesar do expressivo aumento de denúncias apontadas pelo Ministério Público do Trabalho, tais notificações são significam que o problema esteja perto de ser solucionado.

Recente pesquisa elaborada pela Think Eva em parceria com o Linkedin, revela números inimagináveis, mas reais: 47,12% das mulheres já sofreram assédio sexual no trabalho; apenas 5% recorrem ao RH das empresas para reportar o caso, assim como 10% das mulheres não sabem dizer se já passaram por situações de assédio.

Veja que contrassenso: estamos na era de criação de cargos cuja função é cuidar do bem-estar e da felicidade dos funcionários, como  o  cargo de “Chief Happiness Oficcer”, criado pela necessidade de promover ambientes mais sadios e que controlem outra pandemia silenciosa, isto é, a perda da saúde mental. Somos o país mais ansioso do mundo de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em contrapartida, mais da metade das empresas públicas e privadas sequer contam com uma política de enfrentamento aos assédios. E as que possuem, não monitoram nem acompanham os casos. O Código de Conduta não passa de um "juridiquês" inútil "para inglês ver".

Procuro entender, depois de muito remoer, o que sente o assediador quando assedia sem dó nem piedade. Fico surpresa como não guardam qualquer empatia com as vítimas.


Celebridades ou pessoas comuns, destilam com prazer seu autoritarismo em forma de poder (assédio moral) e lascívia (assédio sexual) sobre suas vítimas.

O verdadeiro prazer em subjugar.

Senti na própria pele, ou melhor, em cima do meu cangote. A partir daquele momento, meu mundo caiu e, aquele trabalho que eu amava, começou a me dar calafrios.

Quando caia a tarde, uma tremedeira e uma desculpa na ponta da língua para me livrar das investidas inconvenientes e insistentes. O que me rendeu um afastamento e o diagnóstico de Síndrome de Burnout. O qual foi totalmente ignorado, nunca se falou a respeito

Até que as desculpas acabaram e passei a ser “persona non grata”, vivi um terror psicológico e o assédio sexual se transformou em assédio moral, mediante várias atitudes reiteradas. Ressalta-se que, para configurar o assédio moral, são necessárias condutas reiteradas para abalar a integridade psicológica do colaborador, diferentemente do assédio sexual, que pode ser tipificado apenas com uma conduta de constranger a vítima para obter "favorecimeno sexual", crime previsto no artigo 216 A do Código Penal..

Diferente do assédio sexual que pode ser tipificado apenas com uma conduta de constranger a vítima para obter “favorecimento sexual”, crime previsto no artigo 216 – A do Código Penal.

Apresento algumas delas, porque não se trata de um rol taxativo: ter atestado médico ignorado, e-mails não respondidos, retirada de autoridade perante funcionários, atividades aquém da capacidade intelectual, controle rigoroso de horários, ameaças de demissão, retirada de autonomia, estabelecimento de metas inatingíveis, excesso de demandas, reprovação em público, ignorar atestados médicos, dentre outras.

Realmente, não sei até hoje como pude aguentar toda sorte de humilhação, mas com determinação não caí na triste estatística: uma em cada seis mulheres pedem demissão ao sofrer assédio no trabalho. Entretanto, foram muitas as vezes em que chorei em minha cama,  além de travar uma guerra comigo mesma quando tinha que sair para trabalhar.

Eu, como privilegiada que sou, não saí totalmente ilesa, mas com apoio estruturado e pessoas inspiradoras, me tornei uma potência para transformar meus traumas em defesa aos que são vulneráveis e, além disso, conseguir ajudar as empresas por meio de treinamentos preventivos.

Avaliando melhor, sofri mais tempo do que deveria. Não aceitava a ideia de ver minha carreira de sucesso interrompida por um capricho machista.

E aqui estou eu, refeita e trilhando meu caminho, valendo-me do DIREITO para comunicar e para transformar este cenário.

Apoiar a quebra desse ciclo resistente, tal qual esse vírus que nos flagela.

Não quero aqui ser exemplo de nada, pois minha jornada só está começando. Quero poder inspirar e captar atenção de um número infinito de pessoas. Quebrar o ciclo do assédio é um dever de todos nós.

Hoje sou membro efetivo da Comissão de Prevenção e Combate aos Assédios da ABO - Associação Brasileira de Ouvidores/Ombudsman, instituição que abraçou a causa, promove cursos e incentiva a implantação de políticas de combate aos assédios.

Quero comunicar o DIREITO do trabalho sem assédios.

Mudar a relação entre os profissionais, recuperando a ética e preservando a integridade psíquica dos seres humanos.
Agora eu entendo: Comunicar é minha cura!

Vem comigo para que, juntos, possamos entender a maneira de quebrar o ciclo dos assédios.

Temos muito o que fazer! A responsabilidade é de todos.

E, por último, gostaria de deixar registrado: perdi minha mãe em Janeiro de 2019, época na qual ainda sofria assédios. Contudo, até seu último momento, a preservei desse fato. Tenho certeza que hoje ela está orgulhosa da minha insistência e força para transformar
 
*Valquiria Furlani é advogada empresarial, palestrante e consultora em relações corporativas.


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